terça-feira, 15 de novembro de 2016

A Umbanda em minha vida.


15 de novembro de 1908 – aprendi há pouquíssimo tempo- foi o dia em que a Umbanda foi declarada como a nova religião brasileira, pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, por meio do médium Zélio de Moraes. Eu conheço a Umbanda há apenas um ano, mas nada mais justo do que prestar uma homenagem, singela que seja.
Eu cresci ouvindo a sociedade falar da Umbanda de forma pejorativa, principalmente sobre sacrifício de animais. Porém, sempre conheci pessoas que são dessa religião, pessoas muito boas, e isso fazia com que eu me questionasse a respeito desses rumores. Eu sempre fui muito ligada às origens africanas: culturas, histórias, danças, batuques... Frequentei e desfilei em 2005 (dez anos antes de frequentar a Umbanda) no Afoxé Ile Omo Dada, e era encantada, apaixonada por tudo aquilo. Sempre amei tranças e tive a oportunidade de fazer esse penteado: o cabelo inteiro de trancinhas finas. Era um lugar cheio de amor e boas energias. Um dia, um senhorzinho segurou meu rosto com delicadeza e disse, transbordando carinho: “nossa branquinha do reduto afro”. Me emocionei só de lembrar. Eu adorava ir aos ensaios; foi um tempo de uma troca linda e muito aprendizado. Aprendi o que significavam os passos da dança, por exemplo: a representação de uma lavadeira no rio. Um mundo inteiro a ser descoberto; uma cultura riquíssima que foi marginalizada e teve o seu acesso obstruído pelo preconceito e racismo arraigados nas gerações.
No que diz respeito às religiões, eu sempre fui uma pessoa de muita fé. Minha mãe me ensinou algumas orações e a rezar todas as noites; porém eu tinha algumas manias que ‘inventei sozinha’, quando criança. Eu sempre tive um lugarzinho para deixar algumas imagens. Anjo, Jesus, Nossa Senhora. Vela, terço, incenso e pedrinhas. E também duendezinhos e maçãs para eles. Doces para Cosme e Damião. Na parede, o Daimoku. E acreditava em signos e astrologia. Sempre amei o mar e Iemanjá (a única Orixá que eu conhecia).
Meu pai é um homem que acredita em Deus, como uma força superior. Mas nunca conversamos sobre religião. Minha mãe me ensinou a rezar mas nunca fomos à igreja nem a lugar nenhum. No entanto, eles nunca me impediram nem mesmo se incomodavam quando eu queria conhecer alguma religião. E eu, desde criança sentia falta disso. De algo. Então minha infância foi assim: Ia à paróquia com uma tia minha, nas férias; ia a reuniões budistas com minha madrinha, na outra parte das férias; conversava com um casal de amigos da família, que é evangélico e me deu uma Bíblia linda para jovens, que eu lia; fui convidada por uma vizinha americana a ir em uma reunião da igreja dela, a protestante; mais alguns dias de férias e eu via minha vó rezando as novenas com seu tercinho na mão; e a outra vó que estudou sobre o espiritismo de Kardec mas também me levava nas novenas e vias-sacras.  E gostei de todas elas, verdadeiramente. Mas, sendo criança, não frequentava nada sozinha, então esses momentos ficavam apenas para as férias. Enquanto isso, eu seguia fazendo minhas orações, tudo misturado e com muita fé, mas não inabalável ao ponto que indagar sobre o porquê Deus, sendo tão bom, permitia tantos acontecimentos maus, o porquê tantas crianças na miséria, guerras e sofrimento. Eu tinha fé, mas não tinha orientação necessária. As únicas orientações que eu recebia era nesses momentos de férias, que eram poucos e esporádicos.               
Além disso, nunca aceitei bem, até então, a morte. Isso para mim significava a perda das pessoas e eu reagia muito mal. Em 2005, 5 amigos sofreram um acidente de carro, e três desencarnaram. Questionei Deus e sua justiça. Minha mãe me emprestou o livro Nosso Lar (ela sempre teve essa crença no espiritismo, mas nunca havia me passado, talvez pelo meu pai), mas eu não consegui ler mais de duas páginas, me acabando em lágrimas. Devolvi o livro. Em 2006 desencarnou uma criança muito próxima a mim, muito chegada a mim e eu a ela. Perdi a linha. Derrubei meu quarto. Fiquei de mal com Deus. Questionei tanto, o porquê uma criança que não teve tempo de fazer nada para se prejudicar, nem prejudicar aos outros, ter que passar por uma doença como o câncer, sofrer tanto e morrer. Aí já era demais. Eram inúmeras perguntas sem resposta. Então uma prima minha, um pouco mais distante, estava conversando comigo por telefone e eu lhe fiz essas perguntas. Ela é espírita e começou a me responder, dentro da visão espírita. E eu comecei a me acalmar, aceitei bem a explicação dela. Para mim, confortou mais e tinha lógica. Mas não fui além... Sempre fui de trabalhar e estudar muito e não tinha tempo para mim. Quanto mais o tempo passava, mais falta eu sentia de cuidar do meu espírito, mas nunca tinha tempo. Fui ficando angustiada, mas eu estava sempre em segundo plano. 2013 e 2014 inteiros foi tentando ir em algum centro espírita. Os horários não batiam. 2015 começou e eu já não estava mais aguentando ficar sem um norte, sem orientação. Mesmo rezando e orando em casa, eu não tinha conhecimento, nem estrutura. Passei o ano tentando, até que em outubro eu consegui ir, pela primeira vez em um “centro espírita”, que na verdade é ecumênico e tem também a gira de Umbanda. A proposta inicial da Casa já era maravilhosa, e ia de encontro com o que eu vivi: o respeito a todas as religiões; o saber que não importa qual religião você siga, o que importa é o amor, a sua melhora, a sua evolução.
Eu cheguei ali com um casal de amigos que já frequentavam a casa há algum tempo. Estava tímida, ansiosa, e sim... um pouco receosa, por tudo o que eu ouvi sobre a Umbanda, e também por não saber como seria; eu acreditava sim, mas não sabia se lá era um lugar sério, se os médiuns recebiam mesmo as entidades (peço perdão a todos!!!). Mas ao mesmo tempo, eu sentia uma coisa boa dentro de mim. Ao chegar lá, minha primeira surpresa: um ambiente agradabilíssimo, clarinho, com imagem de Jesus e de santos (eu não sabia sobre o sincretismo) e também de entidades e Orixás. Depois, uma mensagem foi passada por um dos trabalhadores. A mensagem foi linda. As pessoas lá falavam em Deus, Nossa Senhora, Nosso Senhor Jesus Cristo. E começou a gira. Os atabaques me arrepiaram, os pontos me emocionaram. A sensação era de que eu estava em um universo paralelo. E aquela ansiedade aumentando. Conversei com um Baiano e no fim não tinha mais o que duvidar... Eu estava em casa. As entidades, maravilhosas. Os médiuns, pessoas humildes, doces, dispostas a ajudar e ensinar. A casa, um ambiente e uma energia sem igual.
Descobri que a Umbanda é uma religião brasileira, de matriz africana, com base no espiritismo, de alcance popular. A Umbanda não sacrifica os animais. Não cobra pelas consultas. Não interfere no livre arbítrio de ninguém. Quem faz isso são médiuns e entidades mal-intencionados, que acabam prejudicando o nome dela. A Umbanda não muda as coisas para você, e sim, te muda para as coisas, e isso faz toda a diferença. A Umbanda te orienta à caridade, ao respeito, ao amor a todos sem distinção. Há um ano eu frequento a Umbanda, e há tanta gratidão dentro de mim. Pela casa, pelos dirigentes, pelos trabalhadores, pelas entidades. Minha vida mudou muito, mas não mudou em nada. Eu mudei, estou mudando. Aprendi a tirar a responsabilidade dos meus problemas de cima dos outros, e assumi-los. Aprendi que eu sou responsável pelas minhas ações e vou responder por elas; boas e ruins. Que se eu recebo bênçãos é por meu merecimento, no que se refere às minhas atitudes. Aprendi a me resignar diante dos desígnios de Deus (na verdade, estou aprendendo); aprendi que eu não tenho nada além do que eu preciso ter, que eu estou onde deveria estar, com as pessoas que eu deveria estar. Estou aprendendo a controlar meu orgulho; a perceber meus defeitos e tentar controla-los; estou aprendendo a perdoar; estou aprendendo tantas coisas com orientação e carinho. Encontrei na Umbanda a minha base, meu lar; encontrei pessoas que estão dispostas a ajudar a qualquer hora do dia. Eu me encontrei. E percebi que tudo aquilo que eu vivi não é o oposto à Umbanda; eu acreditava que uma religião complementa a outra, que elas pregam os mesmos valores, oram para o mesmo Deus, não importa que nome tenha; e a Umbanda me mostrou exatamente isso. Tudo é luz quando se faz com amor, respeito, caridade, fraternidade e tolerância.
Hoje, não me vejo sem a casa, sem as entidades, sem a Umbanda. Sou eternamente grata. Meu coração está cheio de amor.
Só tem um ano, mas foi o ano de maiores mudanças em minha vida. Não mudou nada. Mas mudou tudo.
Umbanda me trouxe luz, amor, fraternidade.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O Drama do Banheiro!

Quase toda criança adora dormir na casa do amigo, e eu não era uma exceção. Aos oito anos mudei de novo de cidade e fiz amizade com uma menina chamada Juliana; estudamos três anos juntas até mudarmos cada uma para uma escola diferente.
Não demorou muito para nossas mães se conhecerem, uma conhecer a família da outra, passar fim de semana e até mesmo viajar para a praia junto; éramos inseparáveis! A coisa mais gostosa que tinha era quando íamos direto da escola para a casa da outra. Ficávamos inquietas e fazendo planos.  Quando batia o sinal para ir embora, era um friozinho na barriga, uma felicidade incontrolável. Certa vez, foi dia de eu dormir lá. A Tania e o Germano, mãe e padrasto da Ju sempre foram muito legais e atenciosos comigo. Sempre ríamos muito, brincávamos, era sempre muito divertido. Tive ótimos momentos que guardo na memória com muito carinho. Ah, eles tinham também uma cadelinha – a Lady, ou Leidoca- que nem era muito grande, mas eu morria de medo de cachorro, mesmo sendo boazinha como ela era!
Mas, uma noite eu acordei muito, mas muito apertada mesmo, morrendo de vontade de ir banheiro. Na casa tinha dois: um no quarto do casal e um lá fora (onde eu teria de passar pela Lady). É claro que eles sempre me deixaram à vontade, mas fiquei sem graça de invadir o quarto deles assim, no meio da noite. Fui até a porta, enrolando a barra da camiseta com o dedo, coloquei a mão na maçaneta, mas retesei. Não queria incomodar. Meu xixi querendo dar o ar da graça. Dei meia volta e andei gingando até a porta da cozinha, virei a chave e coloquei a mão na maçaneta... pensei na Lady. Fechei os olhos com força, aquela vontade de ir ao banheiro e eu passando por aquele drama. Deem um desconto, sou libriana. Eu sofria; a vontade estava virando dor. Resolvi ir ao banheiro do quarto, mas parei no meio do caminho. Fiquei olhando para a porta. O xixi não ficaria dentro de mim por muito mais tempo. Decidi. Agora eu vou. Caminhei decidida, levei a mão à maçaneta e me imaginei entrando no quarto, tropeçando em algo muito barulhento e acordando meus anfitriões no maior susto. Desisti da ideia e já estava começando a pensar que pudesse ter algum vasilhame, qualquer coisa que eu pudesse jogar fora depois. Mas é claro que caí na real. Pensei em acordar a Ju; então fui até a cama dela mas fiquei com dó de acordá-la. Coragem, mulher! O xixi ia sair, e eu comecei a chorar baixinho. Não dava mais! Precisava encarar a Lady, de uma vez por todas.
Tomei coragem, andando meio rápido (estava na portinha!), abri a porta da cozinha, olhei ao redor e nem sinal da Leidoca. Desci os degraus devagar para não correr o risco de acordá-la. Tentei andar o mais rápido possível que eu conseguisse com aqueles passinhos silenciosos. O quintal não era muito grande, mas demorou uma eternidade na minha cabeça exagerada e dramática. Vai sair, vai sair... Quando a gente começa a se aproximar do banheiro a vontade vai aumentando incontrolavelmente. Pouquinhos passos me separavam do grande alívio! Poderia até sorrir de alegria, se esse movimento não contribuísse para relaxar meus músculos internos e causar um incidente, logo agora tão perto da vitória. Ouvi um barulho, olhei para o lado aterrorizada e vi Lady, correndo feroz em minha direção, pronta para atacar (claro que ela só queria brincar). Qualquer criança normal no mundo iria entrar no banheiro para se esvaziar e depois dar um jeito de encarar a “fera”; eu não. Não lembro se eu gritei, mas saí correndo de volta para dentro da casa, com a Lady correndo atrás de mim. Que desespero! Era o fim... além de fazer xixi na calça eu seria atacada. Subindo a escadinha, meu chinelo dobrou na frente e eu tropecei, perdendo o calçado. Larguei ele à sorte, esperançosa que ele distraísse minha caçadora. Ela ainda tentou entrar em casa, mas fechei a porta a tempo. Como eu era uma criança de muita atitude, comecei a chorar e voltei paro o quarto, conformada com meu destino. Logo a Tania acordou e foi me socorrer, perguntando o que houve. Contei que eu estava apertada e ela me salvou. Agradeci muito e voltei a dormir. Isso tudo aconteceu muito rápido, mas no momento, pareceu que o tempo se arrastou.
Eu continuei visitando essa família tão querida, continuei boba, mas o medo da Lady diminuiu um pouquinho e hoje em dia amo cachorro, brinco, amasso, aperto! Só depois que eu me mudei mais uma vez de cidade é que fomos nos distanciando fisicamente, mas temos contato até hoje! (Santa internet!)

Não me lembro realmente se cheguei a contar detalhes dessa minha pequena aventura noturna para a Tania e para a Ju... mas agora elas vão saber, dezoito anos depois!

Pamella Vidal Serrano

domingo, 25 de outubro de 2015

Amor Arbitrário

O mundo está cheio de certezas
E verdades absolutas.
A briga entre torcidas
Já nem vira mais notícia.
A autoestima das pessoas
Está mesmo muito boa:
Quem antes tinha uma opinião,
Hoje é redentor da verdade absoluta, da razão
E qualquer pensamento contrário,
Deve ser censurado, banido, exterminado.
E enquanto certezas aumentam,
Baixa a tolerância.
Não importa se é mãe, primo,
Tio, parente distante, filho,
Pai, avô, avó, amigo...
O radicalismo veda o amor,
Repulsa a razão.
É por causa de time de futebol,
Religião, crenças, costumes,
Política, diferenças sociais,
Candidatos à presidência...
Homossexuais, simpatizantes,
Protestantes,
Evangélicos, católicos,
Umbandistas, tucanos,
Petistas, gordos, tatuados,
Elite, direita, esquerda,
Flamenguistas, são paulinos, qualquer um:
Não pensa igual, vira tipo satanista.
Tudo o que é pensado com diferença
É tratado com intolerância e insolência
Pessoas públicas ou anônimas,
Todos tomados por um ódio
Nascido de suas próprias frustrações.
Reclama-se das violências nos morros,
Assaltantes de arma na mão;
Mas como chamar quem ataca o outro
Por causa de opinião?
Cinismo e arrogância
É o que hoje está em alta.
O bom senso está arbitrário
Por isso vou logo explicar:
É só um texto pro amor,
É um poema apartidário.

Pamella Vidal Serrano

28/08/2015

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Piscar de Olhos

E é num piscar de olhos que tudo se vai...
Ao fechar os olhos por um segundo, a lágrima cai,
O sorriso se desfaz, a chuva chega, o sol se vai...
É nesse segundo tão breve que ônibus passa,
A comida queima, o leite derrama,
Aquela pessoa te olha, a vida se esvai.
Basta piscar o olho pro mar ficar fundo,
A correnteza levar, a flor que estava aqui, o vento fazer voar...
Pisque os olhos e a criança vai crescer, o carro pode bater,
Aquele inseto que estava bem à sua vista, desaparecer...
Nesse segundo o tempo passa, ou o tempo para.
Ao fechar os olhos no piscar,
Ganha-se um beijo inesperado,
Um abraço apertado,
Um sorriso frente a seu rosto...
Basta fazer as pálpebras dançarem,
Se entrelaçarem,
Para alguma mágica acontecer.
Uma mágica boa ou ruim? Não dá para saber.
Esse é o mistério do piscar;
Coisas podem sumir, ou aparecer.
E arriscar parar o tempo, ou fazê-lo passar
Precisa ter coragem.
Basta piscar perante o desespero
Para visualizar uma miragem.
O momento tão rápido e inoportuno do fechar dos olhos,
Pode mudar tudo no mesmo segundo.

Pamella Vidal Serrano
17/08/2015

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A Viagem - Crônica

                Sempre fui uma pessoa assustada com o mundo e com as pessoas; acabei crescendo com medo de quase tudo e quase todos; não me permitindo, assim, a coisas vistas como normais para a maioria das pessoas. Como por exemplo, viajar sozinha.
Uma grande amiga minha, Mayara, tinha se mudado há pouco tempo para Jericoacoara, no Ceará, e queria muito que eu fosse visita-la. Acreditem: estava com medo, sim, de viajar sozinha. Não gosto de estar sozinha no meio de um monte de desconhecidos. Isso para mim sempre foi motivo de verdadeiro pânico. Mas, leitora assídua que sou, descobri Martha Medeiros, e o primeiro livro que li dela foi: Um lugar na Janela. Relatos de viagens que ela fez, em sua maioria sozinha, pelo Brasil e pelo mundo. Nesse livro encontrei muito do que eu estava querendo e precisando ler, além de ter encontrado também, “uma ídolo” na literatura.  Resolvi encarar meu medo.
                Com o pensamento de que seu eu me programasse direitinho nada poderia dar errado, comecei a ir atrás de resolver tudo: além das passagens, precisava conseguir um transfer (carro 4X4) que me levasse de Fortaleza até Jeri, pois lá se chega pelas dunas de areia, e carro baixo fica atolado. Esse serviço é um tanto caro para ser contratado por apenas uma pessoa. Já que cabem vários passageiros no transporte, quanto mais gente para dividir o valor, melhor! Os dias passaram e nada de uma resposta concreta sobre possíveis companheiros de transfer.
Finalmente, na véspera da minha viagem, o rapaz que conduz a equipe de motoristas conseguiu mais pessoas que chegariam no mesmo dia que eu no aeroporto...mas por volta das onze da noite. E eu chegaria por volta das quinze para as sete da noite. Meu Deus! Ficar sozinha por tanto tempo em um lugar desconhecido, praticamente em terras estrangeiras, sem conhecer ninguém, sem saber o que fazer além de ler e escrever (usar o celular à toa, jamais! Vai saber se vou acabar precisando dele em alguma urgência! Vai que eu não consiga encontrar o cara do transfer! Vai que eu acabe tendo que ficar por Fortaleza até o dia seguinte! E se, de repente o carro quebra e ficamos parados no meio da estrada? Tinha que pensar em tudo, por isso, levei bem carregadinho o meu carregador portátil que carrega celular sem precisar de tomada! Mas sabe-se lá se eu não precisaria de toda a carga! Melhor não arriscar, não é?).
Enfim, estava nessa, então vamos aceitar o meu destino da melhor forma. Foi quando aceitei sem argumentar, ou questionar, ou querer chorar, que minha amiga (que estava intermediando esses contatos) mandou uma mensagem avisando que haviam conseguido um passageiro que chegaria as nove da noite, mas provavelmente seríamos só dois. Rachar meio a meio e ir embora mais cedo, ou esperar até as onze da noite e pagar menos? Lembrando que eu tinha que dar a resposta e que eram cinco horas de viagem. Optei por ir mais cedo, pois assim também chegaria mais cedo e não perderia o dia seguinte em Jeri. Resolvido, bora dormir que o dia seguinte prometeria!
Minha mãe e eu acordamos, tomamos café e seguimos para Guarulhos. Ouvindo um CD de um amigo, o Rafinha, conversando e brincando uma com a outra, rindo a viagem inteira.
Estávamos nos aproximando da entrada, quando erramos; minha mãe brigou e rimos mais um pouco. Na tentativa de voltar acabamos errando a entrada do retorno. Mais risadas. Ainda bem que eu pedi para ela parar em um posto antes, pois não sei porque estava muito apertada em tão pouco tempo. Vai ver era o nervosismo. Ainda bem que não era dor de barriga! Voltando... entramos na estrada certa para conseguir entrar na entrada certa! Estava chovendo e minha mãe sugeriu que ela me deixasse no embarque, fosse estacionar e depois viesse ao meu encontro. Falei que não precisava, tadinha. Iria andar um bom bocado e pegar chuva por minha causa. Mas ela conhece a filha que tem e sabia do meu drama interno. Insistiu. Eu resisti. Não faria minha mãe pegar chuva por causa de um medo bobo. Quantas pessoas no mundo não fazem isso? A Martha Medeiros vive fazendo isso e ama! Estava mais do que na hora de acertar os ponteiros comigo mesma. Saltei do carro e troquei um carinhoso abraço com a mamãe. Respirei fundo internamente, pois não podia demonstrar meu nervosismo. Precisava convencer a todos e a mim mesma de que eu estava segura e confiante, que estar ali sozinha, para mim, era a coisa mais normal do mundo; por dentro, eu estava quase gritando. Tchau para a mamãe, é hora de adentrar ao desconhecido, superar os medos...crescer dói. (Meu Deus, quem escreveu esse roteiro?).
Precisava encontrar o guichê da minha companhia; e é claro que não era aquele bem a minha frente. Andei por lá atenta a tudo. Perguntei (me sentindo o Harry Potter, rumo à plataforma 9 3/4 ); me indicaram. Segui até lá e não tinha muitas pessoas na minha frente; mas de repente, atrás de mim começou a chegar gente, quase que todo o meu voo, talvez. Muita gente atrás de mim e chegou minha vez de ficar em primeiro lugar na fila. Fui ficando com calafrios. Olhava do primeiro ao último guichê atenta ao menor sinal de movimentação a fim de não perder muito tempo e chamar a atenção de todos que ali estavam esperando também. Então, uma família liberou um bem próximo a mim. Fiquei olhando para a moça que atendia, para que ela me desse um olhar encorajador e fizesse com que eu seguisse até ela e fizesse meu check-in. Mas isso não acontecia. Eu sentia as pessoas olhando para minha nuca. Vou ou não vou? A moça não erguia a cabeça. Respirei fundo internamente mais uma vez e com toda a confiança que pude exalar, fui até ela empurrando minha malinha de pé. Ela ergueu a cabeça e eu ensaiei um sorriso de bom dia e ela disse: “Espera um pouco que eu vou lá atrás etiquetar uma mala”. Respondi com um modesto ‘ok’ e fiquei ali paradinha. Ela percebeu, virou para mim e disse: “Acho melhor você esperar na fila pois eu vou demorar um pouco”. Provavelmente devo ter soltado outro ‘ok’ baixinho e singelo e segui para a pontinha de fila com o rosto queimando. Parecia que todos ali tinham acompanhado a cena. Torci para não ter ficado muito vermelha. Tentei impor o resto de dignidade que tinha murchado dentro de mim. Pensei em bocejar, para mostrar que não estava nem aí com o acontecido. Mas, muito óbvio. Para minha tristeza, só de pensar me deu vontade de bocejar e abri o bocão lá no início da fila, dando a impressão que eu estava disfarçando só porque fiquei sem graça. Não era claro que todos tinham pensado isso? (O mais provável é que ninguém tomasse conhecimento de mim, mas qual tímido pensa assim? Como diria minha mãe, os tímidos são os mais egocêntricos, pois acham que todos estão olhando para eles. Eu não me acho egocêntrica, mas isso faz algum sentido). Enfim, mais alguns poucos minutos e fui chamada por um mocinho no guichê ao lado. Entreguei o voucher para ele e procurei alguma coisa na mochila, não me lembro bem o que. Quando ele falou: “Eu vou te etiquetar e colocar na esteira junto com a bagagem” e deu risada, eu olhei para cima para dar um sorrisinho simpático, embora não tivesse entendido nada, quando eu o vi olhando para o cara que trabalhava ao lado. Meu sorrisinho simpático se transformou num sorriso amarelo pancada e eu decidi que seria melhor eu não tentar confraternizar com a sociedade. Me ocupei em mexer em nada dentro da mochila só para ficar olhando para baixo. Ele me entregou o cartão de embarque e desejou boa viagem. Quase fiquei em dúvida se agradecia ou não, com receio de nem ser comigo, mas minha educação me fez dizer um “obrigada” e tratei de sair o quanto antes de lá.
Agora, vamos achar o portão. Para que lado? Vamos chutar um. Vi um quiosque e resolvi pedir informação. Ali vendia joias e a moça me orientou a pedir informação a dois quiosques adiante, mais precisamente no de informações. O que acontece comigo? Acho que eu entro em pânico em situações desconhecidas e troco os pés pelas mãos. Perguntei. Respondeu. Obrigada. Partiu. Anda.... anda... anda. Sobe. Portão encontrado. Café ao lado! Capuccino e pão de queijo. Água e tridente. Martha Medeiros. E aquela vontadezinha enorme de encontrá-la no aeroporto e trocar umas ideias com ela. Ia ser o máximo. Mas de tiete que sou, quase nunca encontro as pessoas que admiro. Sorte a delas. Enfim, tomei meu café, paguei e rumei para o portão de embarque. Entrei na fila toda atrapalhada e passei pela esteira, com um receiozinho de eles encontrarem em meu apontador, uma arma letal. Tudo certo, pego as coisas de volta e vou fazer o reconhecimento do ambiente; o meu portão ali perto, um café e o banheiro; tudo pertinho um do outro. Para não perder o costume, fui até a lanchonete e pedi um moccha gelado. Terminando, me sentei aguardando a moça chamar pelo microfone. Esse é o momento em que quase qualquer ser humano solteiro vai esperar que o seu grande amor esteja sentado perto – se der muita sorte, até mesmo ao lado – e puxará um delicioso papo, que se estenderá pelo avião a fora (pois descobrirão que estão sentados lado a lado como um presente do destino). Claro que não, né! Descobri que a chance de isso acontecer é uma em milhão. E ninguém ao meu lado puxou assunto. Talvez fosse mais fácil se eu não tivesse com o livro na cara, mas enfim... Livro é livro, o amor pode esperar. Eis a chamada! Pega fila, entrega a passagem, pega um corredor e entra no avião. Tripulação. Bom dia. Caça a poltrona. Bem no meio. Queria a janela para poder ver ou o corredor para ser mais fácil de sair quando precisasse ir ao banheiro. Mas não.  Bem no meio. Encurralada. Para completar, duas moças. Nenhum rapazinho solteiro. Pena. De qualquer forma, hora de aguardar o avião encher, todo mundo se ajeitar para finalmente partir. Não fiquei ansiosa, mas confesso que estava me sentindo meio perdida, mesmo já tendo voado. Enfim, tentei fazer o máximo de esforço interno para tentar parecer natural entre as circunstâncias. Fingi estar casualmente desinteressada com as instruções da tevezinha embora estivesse prestando toda atenção possível em todos os comandos. Apertar o cinto foi fácil, consegui descobrir de primeira que tinha que levantar a fivela. Hora de decolar! Era como se eu estivesse andando de avião pela primeira vez. O avião foi ganhando velocidade... me lembrei dos aviões que não conseguem levantar voo, que aparecem na televisão, nos programas da tarde que a vovó vê. Tentei me esquecer deles. Correndo e sacolejando, tremendo. O avião, não eu. Olhei de esguelha pela janela. Quando o avião levantou voo, quis ficar atenta a tudo. Estávamos bem ao lado da asa, isso atrapalhou um pouco minha visão. Mesmo assim, foi interessante ver a cidade sendo deixada para trás, lá embaixo. Tentei tirar uma foto das nuvens, pois estava um céu lindo, uma vez tendo ultrapassado a barreira do céu da cidade. Minha companheira de poltrona perguntou se eu queria que ela tirasse. Ah, sim! Por favor! Obrigada!  A viagem seguiu e logo eles anunciaram que iriam servir o lanche. O que eu quero beber? Dentre as coisas que eu entendi eles anunciando pelo microfone, leite era o que mais me apetecia. Eu adoro leite. Adoro muito mesmo. Pena que eu tenha entendido errado. “Moça, nós não servimos leite. Apenas refrigerante, água e suco”. Sabe aquele momento cara-de-pau que você faz um ar de singela surpresa e diz que na companhia que você voou na última viagem, eles serviram? Pois é... não fui capaz de fazê-la, senti meu rosto queimar e arder de vergonha, provavelmente ficando bem vermelhinha e pedi um suco de laranja, tentando colocar na voz, o máximo de naturalidade, mais uma vez. Comi meu pãozinho e tomei meu suco aos pouquinhos: tinha o maior receio de ter que ficar levantando o tempo todo para ir ao banheiro, e ao fazer isso, chamar desnecessariamente mais atenção para mim. Claro que não funcionou. Segurei a minha vontade o máximo que pude para ir apenas uma vez. Atenta às luzes que indicam quando o banheiro está ocupado, ensaiei levantar algumas vezes, até criar coragem. Pode parecer ridículo esse drama grego para ir ao banheiro, mas eu tenho um problema sério de timidez e sempre acho que estou chamando atenção.
Finalmente foi anunciado que iríamos aterrissar. Friozinho na barriga e no coração. Prendi o cinto e mais uma vez fingi que era não era nenhuma novidade. Novidade mesmo não era, pois eu já havia voado, mas ainda assim parecia. Quis olhar pela janelinha a cidade aparecendo. Meu pensamento estava no depois, nas horas que eu ficaria no aeroporto sem fazer nada além de escrever, com medo de me perder, com medo de não encontrar o rapaz do transfer, com medo de não conseguir pegar minha mala na esteira, com medo de pegarem a minha mala... com medo, medo e medo. E vontade de ir ao banheiro. Passei pelo portão e me deparei com aquele bando de gente olhando em “minha direção” esperando seus entes aparecerem! Tentei manter a calma e olhei para o lado buscando fazer o reconhecimento deste ambiente também. Achei o toalete e rumei até ele; lá, além de me aliviar, eu também poderia pensar, ligar o celular para ficar atenta a todos os sinais que o cara do transfer poderia dar, além de avisar minha amiga, minha família, o jornal da cidade e também o Papa que eu cheguei em Fortaleza sã e salva após três horas e pouco de voo.
Encontrei uma lanchonete onde eu podia ficar sentadinha, quase em paz – pois não havia quase ninguém-, escrevendo e tomando um cappuccino gelado. Eu falei que gostava muito de leite. Esse momento curto até encontrar o rapaz do transfer também foi pontuado por ansiedade, mesmo eu tendo recebido a foto dele; como sou péssima de fisionomia, era capaz de eu não reconhecê-lo. Mas quem diria, sobrevivi a isso também, e logo estava em um 4X4 (no qual eu tive uma semi dificuldade em subir, por eu ser muito baixinha), sozinha no banco de trás, fazendo meu MP3 se fazer entender sobre o forró do dono do carro. Os moços, na frente, conversavam sobre os lugares, pois meu companheiro havia estado lá no Nordeste muitas vezes. Hora ou outra eu participei da conversa: política, economia, situação atual, situações passadas. Tudo com muito respeito, cortesia e dignidade. Em uma época em que não se pode ter opinião contrária sem que as pessoas te xinguem, te julguem, cortem relações e até agridem fisicamente, qualquer momento de conversa tolerante e respeitosa é visto como algo raro.
Paramos para tomar um café e ir ao banheiro. O café foi cortesia e compramos um pacote de Fandangos cada um para seguir viagem. Então, mais a frente paramos novamente e os dois rapazes desceram do carro. Ai meu Deus, o que está acontecendo? Reparei que havia uns três 4X4 parados por ali e algumas pessoas do lado de fora. Não senti medo, mas achei estranho. Alguém aí pode me explicar o que está acontecendo? Como ninguém me socorreu, obviamente achando que eu sabia muito bem o que estava acontecendo, desci também. O nosso motorista, voltando do meio do mato, onde tinha se embrenhado para urinar, pegou uma espécie de ferramenta, se abaixou nos pneus e começou a...soltar o ar? Eu fiquei com aquela cara de “pé de nabo”, e resolvi perguntar. Ele me explicou que estava fazendo aquilo para poder passar pela areia e pela beirada do mar, sem ficar atolado e também recomendou que eu aproveitasse e ligasse para a minha amiga, pois na estrada não ia dar sinal. Assim, quando eu consegui me comunicar, ela comemorou e falou que eu estava pertinho! Até já!
Pegamos o caminho de Jeri, meu coração ansioso e emocionado. Parecia até saber o que estava por vir. Eu conseguia sentir alguma coisa diferente logo ali, e quando eu vi as dunas... nunca vou me esquecer do que senti, mas nunca vou saber explicar esse sentimento. Percorremos o caminho na beirada do mar, que estava baixo àquela hora da madrugada, o carro sacolejando demais e eu no meio, com os dois vidros abertos, tentando ver as dunas de um lado e o mar do outro. Sentir aquela brisa e o cheiro da maresia sempre foi reconfortante; quase como um bebê sente o cheiro de sua mãe e se aninha confortavelmente em seus braços. É assim que eu me sinto. Comecei a ver os primeiros indícios da vila. Meu coração começou a se alegrar, batendo descompassado, curioso a tudo. Meus olhinhos não paravam quietos. Meu companheiro de dividir transfer começou a me explicar as ruas e beco, mostrar os “points” que estavam à vista. Entramos na rua da Mayara, mas não achávamos a casa. Liguei, liguei e só dava ocupado: meu coração ia sair pela boca. Já pensou, não conseguir falar com ela logo agora? Liga, liga, liga e nada. O desespero batendo. Resolveram deixar o rapaz primeiro, na mesma rua, um pouco mais a frente. O motorista teve a brilhante ideia de perguntar à moça da pousada pela Mayara, que morava ali na rua, em umas das casinhas de aluguel de uma senhora. Que sorte! Ela conhecia a minha amiga, e nos levou até lá. A May estava na porta com o celular na orelha. Ela devia estar tentando entrar em contato comigo. Que nada! Estava no maior bate papo com um primo, e eu desesperada!
Agradecimentos e despedidas. Etapa concluída. Era madrugada e minha amiga teria que levantar as seis horas da manhã para trabalhar, porém, seguimos conversando um tempão, até o sono de ambas falar mais forte. O que eu teria de encarar nos próximos dias: minha amiga trabalhava em dois empregos, das sete da manhã às dez da noite. Eu teria de me virar sozinha. Um desafio imenso. Mas Jeri é tão acolhedora, que eu não tive problema nenhum nisso. Ia à praia pela manhã, voltava para fazer o almoço (já que a Mayara almoçava em casa) e depois descia para a praia, onde ficava até o sol se esconder, presenciando todos os dias um dos mais belos pôr do sol do Brasil. De noitinha, tomava um banho, me arrumava e ia para a rua, fazer companhia para a minha amiga na pousada ou ficar na lanchonete ao lado, Abraçaí. Lugar delicioso...sempre acabava sentada entre pessoas simpáticas, bem humoradas, alegres e receptivas.
Meus dias em Jericoacoara foram inesquecíveis e espero voltar muito em breve. Mas, tem certas coisas que é melhor deixar guardadas como boas lembranças, por isso minhas aventuras nessa maravilhosa terra nordestina, ficam para uma outra hora.

Pois é, essa viagem foi melhor que o imaginado, além de superar meus medos, voltei para casa com muitos tabus quebrados, afetos e carinhos conquistados e além de tudo, quem diria...sobrevivi!





quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Escolhas e Respostas

Pelos cantos peregrino,
Sempre sozinho, em busca
Do meu filho.
Passos lentos, uma garrafa;
Um soluço de culpa e solidão.
Desalento, desatento.
Vago por não sei onde
Distante de mim mesmo...
Por onde anda meu menino?
Não sei se homem já se fez,
Ou se cabe ainda em meu colo.
Mas onde posso encontrar?
O tempo já se escapou pelos meus dedos
Eu saí para viver, para ver o mundo
 Dei por mim que o mundo meu
Era o que ficou, o que eu deixei.
O tempo, porém, não me devolveu
Aquilo que um dia eu amei.
Se é que amei.
Bem que eu tentei e
Por um bom tempo eu esqueci;
E só vivi, como vivi...
Não tive um bem,
Não me preocupei com boletins e remédios...
Até o dia em que o silêncio surgiu,
Tudo virou tédio
E a tristeza me invadiu.
A voz que antes cantava,
Hoje se afoga em melancolia;
Afoga o afago das mãos;
 Sombra naquele rosto que sempre sorria.
Refiz os passos, caminho inverso.
Creio não ter esquecido o trajeto...
Mas não encontrei lá , meus afetos.
Pensei, iludido, que estariam
A esperar por mim,
Antes do jantar.
A bela mulher aprontada,
Sempre tão submissa;
O menino sempre arrumado,
Vindo de bracinhos abertos.
Eu era amado.
Mas o que é de minha gente?
Preciso logo encontrar.
De tanto que vivi,
Minha voz vai se perder,
Minha alma vai emudecer...
Meu menino
Eu só

                                            quero
                                                                     te
                                                                                                   ver
                                                                                                         cres
.
     .
         .
           c e r




Pamella Vidal Serrano 
28/05/2015

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Passagem Secreta - Crônica



Sempre me intrigou essa história de passagem secreta. Me fascinava a ideia de poder estar em um lugar e de repente aparecer em outro sem ninguém me perceber. O que tinha de fascinante em um quarto de pedras, como de um castelo medieval, épico, com um enorme quadro na parede que escondia um trecho giratório que dava para um grande túnel mal iluminado? Tudo! Essa possibilidade, acredito, me dava uma certa ideia de poder. Na época, claro que eu não pensava assim, mas hoje em dia... convenhamos: não é uma espécie de poder, poder de repente desaparecer das vistas dos indesejáveis, poder ficar em paz em um canto onde ninguém te encontra? Certamente.
                Passagem secreta. Poder transitar por aí, sem olhares hostis, comentários maldosos. Definitivamente, agora compreendo porque tanto me atraía – e confesso que ainda atrai- essa ideia.
                Tanto me agradava que, logo meus pais começaram a pensar em construir uma casa própria, meu primeiro pensamento foi: quero que façam uma passagem secreta. Claro que eu não era ‘fora da casinha’ a ponto de achar que seria do tipo as dos filmes, porém, que me levasse de um cômodo a outro (isso, tipo o quarto do Nino do Castelo Rá-Tim-Bum) já era o suficiente para encher meu peito de emoção e alegria. Nada me deixaria mais feliz do que um buraco na parede, coberto por um grande quadro, que me levaria ao cômodo ao lado sem precisar passar pela porta. Ideia estranha? Um pouco, confesso. Porém, não obtusa! Pior mesmo foi minha mãe ter gostado. Estranha essa parte da história, não é? Ah, mas acreditem: ela adorou a ideia. Então, passei a frequentar todas as chatas reuniões com o arquiteto (arquitetos, estamos falando de uma criança na ocasião, certo? Sem ressentimentos!), afinal queria estar por dentro da negociação do meu sonho de ter uma passagem secreta. A posição dos cômodos mudava constantemente, mas em todas elas, lá estava a minha passagem. Lembro de ter reclamado, após ver a marcação dela como se fosse uma porta:
                - Mas aqui não é uma porta, é a minha passagem! É um buraco na parede só! – E a mamãe pacientemente respondeu:
                - É só para saber que aí vai ter uma entrada, porque não tem como fazer no projeto uma parede com passagem secreta.
                Aceitei a explicação e prossegui frequentando as reuniões para garantir que nada desse errado. Pouco a pouco as coisas foram acontecendo. Bem devagarinho. Visitávamos a obra constantemente, aquela coisa toda que criança não tem nenhuma paciência, e nem tem que ter mesmo! Enfim, chegou a fase de subir as paredes. Um pouco antes, quando o terreno só estava marcado ainda por barbantes em torno dos espaços relativos aos cômodos, eu olhei para o que seria o meu quarto e não entendi: parecia pequeno demais para qualquer aposento. Depois de uma troca de contestações de ambas as partes (pais e filha), fui convencida de que era apenas impressão.
E as paredes começaram a subir. Minha parede daria para o Ateliê, que estava sendo construído pois minha mãe e eu fazíamos algumas coisinhas de artesanato. Eu costumava pintar, tinha um cavalete e adorava pegar a tela, carvão e tinta e pintar por um tempão. Além disso, minha mãe também costurava, então o espaço daria para fazer tudo.
Eu não me recordo quando foi exatamente que eu percebi que havia alguma coisa –muito- errada por ali. Mas o fato é que eu percebi que no lugar que deveria ter subido a parede com apenas um buraco ao centro, tinha uma abertura igualzinha àquela que fica antes de colocar o batente da porta. Como a gente já nasce sabendo dos nossos direitos de consumidores, fui reivindicar, afinal de contas, o que estava acontecendo no meu quartinho. Minha mãe explicou que com um buraco na parede ficaria difícil de as avós e tias com mais idade subirem e passarem para o meu quarto... Mas como assim? Elas não poderiam entrar pela porta? Mas se elas quisessem usar o meu banheiro no meio da noite, não precisariam dar a volta! Resumindo a história: o ateliê já foi pensado para também, claro, abrigar hóspedes (que sempre foram muitos). Até aí, tudo certo. Mas minha mãe gostou da minha passagem por conta disso. Então, meu sonho pelo privativo desmoronou. Não foi feita nem uma portinha, e eu passei a dormir em um quarto que tinha uma abertura do tamanho de uma porta, que dava direto para um cômodo com quatro grandes janelas de vidro que não tinham cortinas. “Meu mundo caiu”...
Quando nos mudamos, a casa ainda estava em construção, então do lado de fora havia muita movimentação dos trabalhadores. Minha cama ficava bem na direção da janela do Ateliê. Dormir já era difícil, dormir à vontade nos trajes, impossível! Depois precisamos chamar um jardineiro pois não estávamos mais dando conta de arrancar ervas daninhas e rastelar e a grama precisava ser sempre aparada. Imagino que ele já tenha tido umas vistas privilegiadas, pois era difícil saber quando ele estava em casa, e de vez em quando eu era surpreendida saindo do banho enrolada na toalha, ou ia me trocar e percebia que ele estava bem ali, perto da janela. Para quem era fascinada pela magia das passagens secretas, pela magia do sumiço ao qual ela nos permitia... essa minha passagem secreta se tornou em uma grande furada. Por muito tempo eu tentei convencer minha mãe a fechar aquela passagem, mas ela achava muito útil para as visitas que dormiam no Ateliê...
Passados alguns anos, eu comecei a namorar, aí, vamos combinar: sobe parede que esculhambação tem limites! Não subiu. Foi colocada apenas uma portica camarão, que o trinco não para fechado, a porta é toda vazada dos lados, em cima e em baixo e no meio, onde ela dobra. Pensando na visão que os outros tinham, foi até que solucionadinho (embora, quando eu saio do banho e vou me trocar no meu quarto, sempre acho que se tiver alguém ao lado, pode me ver sem querer pelo vão), mas o som... é como se nem tivesse algo que separasse os cômodos. Continuei sem privacidade.  Claro que não culpo as visitas tampouco a minha mãe, que só estava pensando no melhor para os outros. Infelizmente, sinto como se nada mais tivesse sido levado em consideração. Mas finalmente eu entendi na pele o que um amigo meu queria dizer quando repetia a frase: “Quando os deuses querem te castigar, eles dão o que você quer”. Querer excesso de cautela me levou ao excesso de exposição. Mas deixo aqui a dica para o meu futuro marido, que ainda vou conhecer: ainda gostaria muito de uma passagem secreta e um escorregador ao lado da escada!

Pamella Vidal Serrano – 21 a 23 de julho de 2015